terça-feira, 18 de setembro de 2012

Carlos Ott, professor e historiador anônimo na Bahia (em uso)

   Alemão radicado na Bahia foi pioneiro em estudos de arqueologia e pré-história na Bahia, completamente esquecido, seque citado nos trabalhos acadêmicos, talvez por ter suas obras esgotadas, ou por falta de conhecimento dos acadêmicos, quando estudam questões religiosas, questões sobre arte, questões sobre folclore na Bahia.  

   Recentemente soube do falecimento do professor Karl Borromaeus Ott (1908-1997) ou simplesmente Carlos Ott, nascido em 13 de outubro de 1908 em Bieringen, no Estado de Wuertemberg, na Alemanha era diplomado em Filosofia no Atonianum de Urbee, Alemanha em 1937, catedrático e um dos fundadores do curso de Antropologia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. Membro da Ordem dos Franciscanos era conhecido como Frei Fidélis, logo se radicou na Bahia, largou a batina e se dedicou à pesquisa e ao ensino de História. 

   Carlos Ott atuou também como pesquisador do serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - ISPHAN, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia do Instituto de Estudos Baianos, foi um pioneiro dos estudos de arqueologia e pré-história, com diversos livros publicados, entre eles, Formação e evolução Étnica da Cidade do Salvador (1955-57), Bailes Pastoris (1958), A Santa Casa da Misericórdia da Cidade do Salvador (1960), Atividades artísticas nas Igrejas do Pilar e de Santana da Cidade do Salvador (1979), Evolução das Artes Plásticas nas Igrejas do Bonfim, Boqueirão e Saúde (1979), A Escola Bahiana de Pintura (1982), A Catedral da Cidade do Salvador (1987), Monumentos históricos e artísticos do município de São Francisco do Conde (1984), A Catedral da Cidade do Salvador (1987), Atividade Artística da Ordem 3ª do Carmo da Cidade do Salvador (1998), Arquitetura Histórica das Artes Plásticas na Bahia, 1550-1900, Povoamento do Recôncavo pelo Engenho, 1536 a 1888, Vestígios de cultura indígena no sertão da Bahia. 

   Como membro do Instituo Geográfico e Histórico da Bahia, Carlos Ott contribuiu com dois artigos que foram publicados na revista da instituição: Documentos inéditos da História e Geografia da Bahia 1948-49, e Influência Portuguesa na formação da cultura baiana no século XVII (1956), Pelo Centro de Estudos Baianos foram publicados História da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Cachoeira (1978), A Casa da Câmara da Cidade do Salvador (1981), além de ter publicado livros importantes como: Pré-História da Bahia (1959) e Na revista Afro-Ásia do Centro de Estudos Afro-Orientais - Ceao foram publicados os seguintes artigos: A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho (nº 6-7, 1968), A Transformação do culto da morte da igreja do Bonfim em santuário de fertilidade (nº 8-9, 1969) e A Influência arábica na arte baiana (nº 10-11, 1970). Carlos Ott também colaborou na Revista do DPHAN, editado no Rio de Janeiro: Os Azulejos do Convento de São Francisco da Bahia, nº7, 1943: A Santa Casa da Misericórdia da Cidade do Salvador, Vol. 21, 1960 e uma monografia sobre José Joaquim da Rocha (1737-1807) pintor considerado o mais importante do período colonial baiano, pintou vários tetos em perspectiva, quase todos hoje desaparecidos. Sua obra prima é o forro da nave da igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, Vol. 15, 1961. Suas colaborações não param. Em setembro de 1968, o professor Carlos Ott publica no número 2, de Porto de Todos os Santos, revista do Departamento da Educação Superior e da Cultura, da Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia, dirigida por Luís Henrique Dias Tavares, o artigo, A inspiração da pintura baiana no período colonial. 

   O professor Carlos Ott que parecia realizado com a vida simples e plena, acho que sua jornada de totalização e de paz, fez um pouco de tudo que disseram a seu respeito, otimista como principal característica, muitos dos seus livros encontram-se esgotados, a espera de reedições. Era uma figura enigmática, falava pouco, vivia sempre lendo nos longos corredores do colégio, até mesmo na sala dos professores esta sempre com um livro ou revista nas mãos. Tinha exatamente 61 anos, calvo, com pouco cabelo branco, alto, forte, usava sem paletó de cor clara, meio surrado e gravata, o que justificava os baixos salários dos professores. Trazia consigo em uma das mãos um antigo guarda-chuva de cabo preto, companheiro inseparável, fizesse sol ou chuva, estava sempre consigo, na outra mão segurava uma pasta de couro já gasta pelo tempo que cheirava mal. Usava óculos de grau tipo fundo de garrafa, voz de trovão que denunciava claramente o sotaque germânico quando falava. Um tipo fascinante pelo seu conhecimento, uma marcante personalidade que a gente não esquece cuja educação sentimental estava sustentada por duas vertentes, a profissional e a afetiva que foram profundamente marcadas pela constelação familiar severa e religiosa. 

   Carlos Ott foi durante muito tempo voz corrente na historiografia baiana, considerado pelos colegas como um dos mais completos estudiosos. Suas pesquisas são marcadas por grande espírito, uma ótica inovadora e quase sempre inesperada, chamando a atenção para aspectos evidentes que ninguém tenha notado. De estilo próprio, brilho e originalidade, era extremamente cuidadoso com a linguagem simples, mas sem perder a elegância, o pesquisador Carlos Ott, manejava com grande saber os temas abordados em seus livros. Foi na Bahia que seu horizonte se havia alargado, a criação intelectual ganha foros de verdadeiro e indiscutível senso de humanidade, escrevendo com amor e modéstia. O que se pode dizer do seu contributo, sem receio de contestação é que Carlos Ott, nome mágico na terra dos Orixás, ainda não reconhecido como um raro estudioso da nossa história. 

   Quando sobrava dinheiro em casa, eu ia para o colégio de lotação ou ônibus, do bairro da Caixa D’água até o Largo das Sete Portas, onde encontrei por várias vezes o professor Carlos Ott com um dos seus filhos, pois ele residia em Brotas ou Matatú, bairros próximos que davam acesso a Sete Postas, e juntos subíamos a Ladeira dos Artistas, atualmente chamada pelo povo Ladeira do Funil, conversando assuntos variados. Ao entrarmos na instituição de ensino, ele se dirigia ao corredor da direita onde ficava a diretoria, coordenação, secretaria e sala dos professores, enquanto eu permanecia enfileirado com outros alunos da mesma turma, a espera da professora de canto orfeônico, “Sarapatel”, para cantarmos o Hino do ICEIA, assistido por todos os professores Lembro-me de uma das três estrofes: 

Nesta Escola, no excelso agasalho, 
Aprendemos, em sábias lições, 
Os processos e as leis do trabalho 
De formar e polir corações, 
Corações, que florindo na infância, 
Tomem tal compleição varonil, 
Que envelheçam mantendo a constância 
De servir e amar ao Brasil. 

   Após encerramento do hino e hasteamento da bandeira, seguíamos para a sala de aula que fica no primeiro piso, em fila e em silêncio, acompanhados por uma funcionária assistente (popularmente conhecida como censora), levando em uma das mãos as cadernetas estudantis da turma. Ao entrarmos na sala de aula à assistente carimbava nossa presença na caderneta individual do aluno, que era devolvida somente no final do turno. Uma coisa que sempre me chamou à atenção era o fato da mesa da assistente ficar dentro da sala de aula, qualquer desavença ou insubordinação de aluno, ela poderia ser arrolada para esclarecimento do ocorrido, junto à diretoria. Sempre tive boas “censoras”, procurando ser obediente, mas observando algumas infrações cometidas por elas, como a venda de merenda em sala: amendoim torrado e cosido, cavaco, bolacha de goma, cocada, queijada etc. Estive por várias vezes em apuros por descumpri o regulamento interno: uso de sapato incorreto (usava uma botinha vulcabrás), camisa desabotoada, antecipação de saída, apanhar a caderneta, falta da assinatura do responsável na caderneta, atitudes acobertadas por minhas “censoras queridas”. 

   Existia ordem e respeito, a caderneta trazia alguns esclarecimentos, como a farda escolar e disciplina: “Se não podes freqüentar uma escola onde haja disciplina consciente, liberdade, respeitosa e estudo honesto, é melhor afastar-se do ICEIA, porque este não é o teu ambiente.” O corpo docente do Instituto Central de Educação Isaías Alves era o melhor do Estado da Bahia. Tínhamos nessa época nomes importantes da educação baiana: Evaldo Nogueira (dentista e empresário na área automobilista) ensinava desenho, Brito (médico) supervisor de área, era um terror, Nair Medeiro (assistente) ensinava matemática, Nilton José (advogado e vereador) ensinava OSPB Alix M. Froher ou Fischer (médica), Fortunina (Português), Angélica e Iolanda Piva (matemática), Garibaldo Matos (chefe de torcida e ator), havia trabalhado em alguns filmes produzidos na Bahia: O Pistoleiro (1975) e Gouveia também chefe de torcida. Cícero Pessoa, Jair, Theodolina no comando e Mariá de Araújo, na vice-direção. 

   O primeiro livro que li de Luiz Henrique Dias Tavares foi a História da Bahia, um livrinho publicado pela Editora Itapoã do saudoso Dmeval Costa Chaves, escrito para o curso ginasial, adotado pelo professor Carlos Ott, na disciplina de Estudos Baianos, da 3ª série. Eu adorava as aulas, principalmente quando ele falava sobre o Centro Histórico de Salvador, talvez por ter nascido no coração da cidade, na Rua J.J. Seabra nº77 na Praça dos Veteranos, em frente ao Quartel do Corpo de Bombeiros. Tivemos durante o ano aulas práticas, ou seja, visitas aos museus e igrejas das proximidades do Colégio: Largo de Santo Antônio, Cruz do Pascoal, Quitandinhas. Tínhamos também estudos em grupos na Biblioteca do Instituto, eu adorava freqüentar a biblioteca, às vezes matava aula para conversar com a jovem bibliotecária, Ivete Caldas, ainda normalista. Após concluir o ginásio fui reencontrá-la dois anos depois na Universidade Federal da Bahia, estudando direito e trabalhando na secretaria do Instituto de Ciências da Saúde da UFBA. Passados anos reencontrei em Salvador como Promotora do Estado, depois de atuar por vários anos como juíza em Teixeira de Freitas. 

   O professor Carlos Ott tinha didática para o ensino de suas aulas, com ele aprendi as primeiras noções da língua francesa e através dos estudos baianos, a gostar das coisas da terra da Bahia e a entender melhor o jeito do povo baiano. Ele repetia por várias vezes o mesmo assunto, quando não era entendido, apesar do sotaque acentuado do francês ou o emprego de algum termo em alemão. Sem dúvida era exigente, ríspido e em suas aulas repassava um texto previamente estabelecido, que era lido em sala por um aluno escolhido por ele. Certa vez, na aula de francês, o aluno Guido Lima (ligado ao teatro baiano), tinha histórico de perturbado, era meio nervoso, oriundo da classe média, branco dos olhos verdes, morava em frente ao colégio, tinha mais duas irmãs matriculadas no Instituto. Durante a leitura de uma Lição, Carlos Ott chamou à atenção de Guido em virtude do mesmo ler o texto rindo, provocando graça nos demais alunos. Houve uma ligeira discussão e Guido chamou-o de nazista. Irritado, com o rosto de coloração avermelhada se dirigiu ao aluno e ao aproximar-se empurrou o livro no rosto de Guido. Em meio a choro, raiva e gritos, Guido Lima arremessou uma carteira no professor e o bafafá foi parar na diretoria e Guido descansou por três dias, retornando as aulas depois de se apresentar na direção com o responsável. 

   Hoje só me resta reconhecê-lo, apesar de tardiamente, com essas palavras louváveis e de maior reconhecimento ao mestre Carlos Ott, brilhante professor e pesquisador da nossa história, dos nossos gestos, da nossa gente. Ele dedicou a sua vida a propagar e alargar seus conhecimentos, e desde o primeiro momento daquele encontro em 1969, seus conhecimentos impressionaram aquele adolescente de 16 anos, estimulando de certo modo, orientaram-me nos trabalhos de pesquisas, e muitas descobertas que me levaram a novos conceitos, nossas compreensões, novos estudos. Conservo até hoje lembranças inesquecíveis de sua presença com sua memória prodigiosa. O que mais me impressionava eram suas aulas, a maneira de transmitir os conteúdos, pontualidade, paciência, dedicação e entusiasmo nos ensinamentos, talvez fosse o resultado da sua experiência de vida que levaram a realizar vários sonhos e sepultar outros, mudando de vida e fixando novos caminhos para si. 

   Naquela época, não tinha idéia de quanto àqueles ensinamentos ampliariam meus horizontes sobre a historiografia brasileira, especificamente a baiana e de como iria aplicar anos depois esses conhecimentos em sala de aula, porque eu sabia que seria professor mais cedo ou mais tarde. O historiador e professor Carlos Ott é referência generosa na formação ética desse ex-aluno, cujos ensinamentos didáticos e a leitura das obras do mestre, serviram e servirão de estudo e de referência aos acadêmicos e pesquisadores universitários. Por isso continua espalhando sementes que vão dando sombra e flores a quem se alimenta da história cultural, religiosa, política e econômica da Bahia. 



Gilfranciso: Jornalista, professor universitário, Diretor do Departamento de Imprensa da Associação Sergipana de Imprensa - ASI, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. gilfrancisco.santos@gmail.com

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